30 anos de LEADER: Testemunho de Ana Souto

2022-12-29

Iniciativa "Desenvolvimento Local em Portugal - Uma História Contada na Primeira Pessoa"

Ana Souto, ELOZ / DUECEIRA

O LEADER É UMA SEMENTE!... 

Acreditei no LEADER quando, há perto de 30 anos, terminada a defesa de tese de licenciatura e, com a nota quente ainda a clamar por um futuro, me confrontei com um anúncio de jornal em que angariavam recém-licenciados enquanto Jovens Agentes para Desenvolvimento de Territórios de Interior no profundo Mundo Rural. Na altura não sabia bem do que se tratava qualquer dos conceitos mas algo nas palavras Desenvolvimento e Territórios me fez acreditar que o meu projecto de vida as passaria a incluir… 

Acreditei no LEADER, enquanto formanda do curso de pós-graduação “Promotores de Formação para o Desenvolvimento” - ministrado pelo IDARC – Instituto para o Desenvolvimento Agrário da Região Centro, CCRC – Comissão de Coordenação da Região Centro e IEFP – Instituto de Emprego e Formação Profissional com o apoio da União Europeia –, no âmbito do qual aprendi competências de animadora, formadora e mediadora; aprofundei conhecimentos sobre Programas, Planos, Estratégias e Projectos; desenvolvi áreas de saber e formas de olhar e sentir sobre o mundo rural sob a tutela dos inesquecíveis mentores Santos Veloso, Maria dos Anjos Saraiva, Bernardo Campos, Paulo Renato e tantos outros e onde, recebi ensinamentos de outras entidades já com créditos no terreno que me serviram de rede na aventura de criar uma Associação de Desenvolvimento Local, numa época em que ninguém sabia exactamente o que era e para que servia. Para sempre guardados, os ensinamentos da In Loco, na pessoa do Alberto de Melo e Manuel Soares e das Terras de Dentro com o eterno Camilo Mortágua, nessa época, entidades já enraizadas nos respectivos territórios e que transmitiram uma boa inquietação… 

Acreditei no LEADER quando, em 1994, subscrevi em conjunto como o colega e amigo de curso José Augusto Pais, a escritura de constituição da Associação de Desenvolvimento Pinhais do Zêzere, após um processo de mediação local envolvendo -com sucesso- agentes públicos e privados dos concelhos de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande. Nesse dia, senti a felicidade da criação de algo com tanto significado e importância, sensação superada apenas quando anos mais tarde fui Mãe… 

Acreditei no LEADER quando por sugestão e estímulo do saudoso Engº. Goulart Carrinho, gestor do Programa de Iniciativa Comunitária LEADER, criámos uma inovadora parceria de Associações de Desenvolvimento, entre a Dueceira e Pinhais do Zêzere – ambas organizações recentes, à qual designámos de ELOZ (Entre Serra da LOusã e Zêzere), em jeito de elos de ligação entre os sete concelhos de aquém e além Serra da Lousã, com direito a imagem poética e a uma governança também ela inovadora, precursora de outras formas de actuação que se viriam a tomar como certas no futuro mas que há época, tantas e tantas vezes, tivemos de saber justificar perante as tutelas. 

Acreditei no LEADER enquanto abordagem diferenciadora numa visão de identidade territorial a qual estimulava a concepção e implementação de projectos-piloto, a distinção nos modos de actuação, a integração dos agentes e a governança local, o carácter inovador e demonstrativo, a disseminação e replicação de acções. Sob esses princípios, foram criadas Estratégias Territoriais e concebidos e implementados inúmeros projectos… 

Acreditei no LEADER posteriormente já integrando os quadros técnicos da Dueceira – Associação de Desenvolvimento do Ceira e Dueça e onde permaneço até hoje. Anos a fio a remar contra ventos e marés, outras tantas vezes navegando a favor de correntes, estimulando dinâmicas locais, angariando recursos e envolvendo a comunidade numa estratégia comum. Mais tarde com a cisão da ELOZ, criando – de novo - espaço de existência e identidade comum para os concelhos da sua original área de abrangência: Lousã, Miranda do Corvo, Penela e Vila Nova de Poiares. 

Acreditei no LEADER quando, enquanto Iniciativa Comunitária, nos permitiu apoiar projectos de cooperação e animação que deixaram marcas na região. Recordo-me como mais exemplificativos: o Artesanato em Rede (com enfoque nos artesãos e artesanato local); os Trilhos da Serra (centralizado nos agentes e recursos turísticos e patrimoniais); o Arte em 2 Tons (estimulando a cultura e o património local); a Região Solidária (trabalhando as questões da identidade com as escolas do 1º. Ciclo); A Hora da Controvérsia (implementando novas práticas educativas para a construção de uma identidade territorial junto dos alunos dos 2º. e 3º. ciclos, secundário e profissional); o Cidadãos do Amanhã (modelando os jovens para atitudes empreendedoras); o Eco-Rede de Museus Vivos (dinamizando roteiros turísticos em torno das características únicas e de excelência de regiões portuguesas e espanholas) e, ainda, o projecto de cooperação transnacional com os PALOP, Cooperar em Português, o qual visou criar elos de ligação entre agentes e iniciativas em torno da lusofonia. Foram estes princípios de envolvimento e animação das comunidades que, anos mais tarde, permitiram consolidar o território da Dueceira em torno da marca territorial “Terras da Chanfana”, processo de desenvolvimento com mais de duas décadas de trabalho e que permite definir o território em torno de um denominador identitário comum. 

Acreditei no LEADER quando pessoas como o já referenciado Goulart Carrinho, posteriormente, o Nuno Jordão e, mais tarde, o Rui Veríssimo Batista, na sua qualidade de responsáveis máximos do organismo de gestão nacional ou a Adosinda Henriques a nível regional, nos apoiaram na implementação dos nossos Planos de Acção Local. Ou, ainda, quando outras pessoas, algumas já desaparecidas, nos facultaram o suporte técnico no terreno como a Maria do Rosário Serafim, o Manuel Abrantes, o Guilherme Lewes, a Maria Gonçalves e, depois mais tarde, os mais novos que se lhes seguiram e são ainda hoje a equipa que nos acompanha e apoia. Não esqueço da Célula de Animação da Rede, o Francisco Botelho, o Camilo Mortágua, o Samuel Thirion e o Luís Chaves. Tantos, tantos outros que recordo e que reservo carinhosamente no meu espaço de memória. Pessoas fundamentais no percurso de vida. 

Acreditei no LEADER como a forma mais exemplar de estar próxima das comunidades e de lhes dar voz; como o método de envolvimento mais eficaz em torno dos interesses, anseios e expectativas locais; como a intervenção que - mesmo com todas as suas dificuldades de implementação, aprendizagem constante, crises conjunturais e estruturais internas e externas e dinâmicas tantas vezes dissonantes -, permite criar identidade local, afecto territorial e ainda assim sinergias convergentes. 

Acreditei no LEADER quando observei – e, continuo a observar- projectos que com co-financiamentos reduzidos criaram emprego e dinamizaram a economia local nos mais diversos sectores: de restauração, de alojamento, de animação, de produção e transformação dos recursos locais, de serviços; outros que revitalizaram o património cultural e ambiental; outros ainda que criaram serviços de apoio e reforçaram a economia social e suportaram colectividades nas suas múltiplas actividades a favor das comunidades, que revitalizaram aldeias e vilas, qualificaram espaços públicos e muitos outros que permitiram ainda guardar e fazer perdurar as memórias locais. 

Acreditei no LEADER e nas suas redes de ligação, de trabalho e de troca de experiências que conduzem também a afectos, se traduzem em iniciativas concretizadas em parceria com as outras Associações congéneres e se saldam em resultados mais eficientes e eficazes. São exemplo, os grupos de reflexão, discussão e trabalho para a construção de projectos comuns que deste modo ganham escala em visibilidade e impacto. É ainda flagrante e significativo exemplo, a Federação Minha Terra que interliga e agrupa os 56 GAL nacionais, suas associadas, dando-lhes(nos) força de conjunto e criando dinâmicas transversais. São ainda exemplo, os projectos de cooperação –interterritoriais e transnacionais- que conferem maior expressão à actuação das Associações. 

Acreditei no LEADER mesmo quando o transformaram em mera metodologia de abordagem territorial, o espartilharam em normativos, políticas e politiquices, o mascararam com outros nomes que nos confundiram (e quase, quase nos afogaram em desencanto não fora ter como bóia a resiliência) e continuam a confundir quando não nos conferem o papel de parceiros activos na construção de políticas. 

Acreditei no LEADER como metodologia que se reforça e se renova e se recria e que, como tal, nos lança permanentemente novos desafios como os actuais ao não nos conferirem papéis e instrumentos claros na implementação de processos de desenvolvimento local. 

Enfim, em cerca de três décadas acreditei no LEADER com a inocência!!! que a maturidade e a experiência me foram conferindo. 

Sei que apenas alguns compreenderão estas palavras que presumem a dedicação, o apego, o Amor, (gosto de sentir e escrever palavras ousadas e impertinentes!) repito, o AMOR que assumo pelo meu território e suas comunidades (o que equivale a afirmar por estas terras e gentes) e que se traduz no trabalho quotidiano, convicto e laborioso a favor do seu desenvolvimento harmonioso. 

Por tudo isto e muito mais, acredito, ainda agora, que o LEADER continua a ser uma semente… 

Enquanto destaque final deste testemunho não posso deixar de referenciar e recordar uma Pessoa Fundamental na História do Desenvolvimento Local em Portugal e na minha própria História, recordando Maria do Rosário Serafim, 8 anos após a sua partida, em Março de 2014. 

Para ela escrevi estas Palavras que permanecem agora, tal como então, tão válidas e sentidas como homenagem à Mulher que foi… 

"Há gente que nos deixa marcas, daquelas que adquirem estatuto de eternidade.

Maria do Rosário Serafim pertence a esse grupo especial de Pessoas de quem deveria ser fácil falar, não fora a sua partida precoce nos deixar um travo amargo perante a injustiça da natureza que nos rege. Com um lugar de destaque no movimento do Desenvolvimento Local, essencialmente durante a implementação do Programa de Iniciativa Comunitária LEADER em Portugal, teve particular intervenção enquanto Coordenadora da Rede Portuguesa LEADER+. Nesse papel, recordo a sua permanente luta pelos valores associados à defesa do Mundo Rural e o seu incentivo pela afirmação das ADL. Os últimos anos foram dedicados à docência sendo Coordenadora do Doutoramento em Serviço Social no ISCTE-IUL.

Possuidora de uma personalidade marcante e de definidas convicções criou um estilo próprio pelo qual sempre se pautou. Pessoalmente, reavivo a Amizade de tantos anos e cativo-lhe um acalentado e significativo “lugar cá-dentro”!

Por fim, parafraseando alguém que era próximo e comum a ambas e a muitos de nós, reforço: «Um Bem-Haja Rosário e até sempre!» certa que estas palavras serão a expressão sentida de todos!

Juntas sonhámos criar este projecto “Desenvolvimento Local na 1ª. Pessoa”, porque conforme afirmava “um dia alguém irá escrever esta história que nos envolve a todos!”. Era um objectivo partilhado que, infelizmente pela sua prematura partida, apenas foi prosseguido por mim, da forma possível, com os testemunhos pessoais de todos aqueles que desejaram contribuir na sua concepção. Ainda é uma primeira etapa de algo muito mais amplo que envolve muitas outras personagens principais no processo e muitos outros olhares na compreensão do histórico como construção do futuro.  Sejamos capazes de concluir o seu Sonho!


Terra Viva 2019


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A 3.ª edição do programa Terra Viva da Antena da TSF deu voz e ouvidos a 54 promotores e promotoras de projetos, beneficiários da Medida LEADER do PDR2020 através dos Grupos de Ação Local do Continente, entre os dias 3 de junho e 9 de julho de 2019.

ELARD

 

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A ELARD, constituída por redes nacionais de desenvolvimento rural, congrega Grupos de Ação Local gestores do LEADER/DLBC de 26 países europeus. A MINHA TERRA foi presidente da ELARD no biénio 2018-2019.

54 Projetos LEADER 2014-2020

 
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Repertório de projetos relevantes e replicáveis apoiados no âmbito da Medida 10 LEADER do Programa de Desenvolvimento Rural 2020 elaborado pela Federação Minha Terra.

Cooperação LEADER


Edição da Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural e Federação Minha Terra, publicada no âmbito do projeto “Territórios em Rede II”, com o apoio do Programa para a Rede Rural Nacional.






Agenda

Workshop “Novas oportunidades na cultura do medronheiro – da produção ao consumo”

2023-02-17, Escola Profissional Cândido Guerreiro, Alte (Loulé)

26.º Seminário Europeu sobre Extensão Educativa

2023-07-10 a 2023-07-13, Toulouse, França

Receitas e Sabores dos Territórios Rurais

 

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O livro “Receitas e Sabores dos Territórios Rurais”, editado pela Federação Minha Terra, compila e ilustra 245 receitas da gastronomia local de 40 territórios rurais, do Entre Douro e Minho ao Algarve.





[ETAPA RACIONAL ER4WST V:MINHATERRA.PT.5]